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  • Dr. Huber Vasconcelos

Como surgiu a terapia gênica

A terapia gênica, como já escrevi em alguns textos por aqui, é uma técnica em que o material genético de uma célula é modificado para tratar doenças ou alterações biológicas. Originalmente, esta modificação é feita por meio da introdução de um material genético/proteico externo para reparar, substituir, aumentar ou até mesmo inativar a função do gene a ser tratado.




Esta técnica teve suas primeiras evidências científicas reveladas ainda nos anos 1960, por meio da observação de que o papovírus SV40 integrava-se ao genoma de uma célula invadida e a modificava. Ou seja, parte do genoma do vírus se mantinha na nova célula que ele havia invadido. Esta experiência demonstrou a possibilidade de um gene ser modificado a partir de um fator exógeno.


O gene pode ser inserido na célula-alvo tanto in vivo, quanto ex vivo. Na tecnica ex vivo, as células são modificadas fora do organismo e depois são reintroduzidas. Já na in vivo, a edição e introdução do gene ocorre di


retamente no organismo. A técnica in vivo é a utilizada em tratamentos e pesquisas clinicas em terapia gênica na oftalmologia.

Com relação ao olho, o primeiro registro de transferência genética para fins terapêuticos ocorreu em 1996 em modelos animais, quando camundongos com retinose pigmentar foram submetidos à terapia. Neste teste, um adeno-associated virus (AAV) foi utilizado como vetor, sendo injetado junto com o DNA terapêutico de forma sub-retiniana.

A partir de então, a terapia gênica foi sendo estudada para tratar doenças oculares diversas, sobretudo as doenças hereditárias da retina. Os primeiros estudos clínicos em humanos deste tipo de tratamento ocorreram em 2007, para o tratamento da amaurose congênita de Leber secundária a mutações do gene RPE65.

Dez anos depois, em 2017, o Food and Drug Administration (FDA) aprovou o uso de uma medicação (voretigene neparvovec-rzyl) para ser aplicada na terapia gênica para o tratamento de uma doença hereditária retiniana. Este medicamento utiliza o vetor AAV que, quando injetado sub-retiniano, trata distrofias retinianas associadas a mutações bialélicas no gene RPE65. Trata-se da primeira terapia gênica oftalmológica aprovada nos Estados Unidos.

A primeira cirurgia ocular de edição gênica ocorreu em fevereiro deste ano, no Casey Eye Institute -Oregon Health and Science University (CEI-OHSU).

Neste procedimento inédito, uma tecnologia capaz de realizar edição gênica dentro do organismo (CRISPR-Cas9) foi introduzida no espaço subretiniano com o objetivo de reparar uma mutação (variante genética causadora de doença) específica no gene CEP290. Esta mutação é uma das responsáveis por provocar a amaurose congênita Leber tipo 10, um tipo de distrofia retiniana que causa sintomas oculares diversos e cegueira.

No CEI-OHSU (Oregon-USA), há diversos protocolos clínicos que estudam possíveis tratamentos genéticos para condições oftalmológicas, alguns dos quais também são conduzidos em diversos outros centros no mundo, inclusive com participação de algumas instituições no Brasil, como o Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Escola Paulista de Medicina (EPM-UNIFESP).


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